segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

"Recuperação ultra-rápida"

É este o objectivo de todas as entidades e da população da ilha da Madeira, em especial do Concelho do Funchal.

Capa do Diário de Notícias:



Parque de Estacionamento Centro Comercial Anadia:


Fonte da administração da empresa detentora da superfície comercial Anadia Shopping e a PSP garantiram à comunicação social que não foi encontrado qualquer corpo nas as áreas em que as equipas conseguiram aceder, sendo que o Piso -2 do Parque de estacionamento continua submerso. A meio da tarde chegaram elementos da Marinha com mergulhadores, botes e bombas de água.

Notícias como a que a Lusa e outras agências notíciosas avançaram esta manhã que haviam sido encontrados corpos são prováveis de verificarem-se verdadeiras, mas até ao momento não têm qualquer carácter oficial. Uma vez mais a especulação afecta a imagem passada para os Portugueses e Estrangeiros, ficando os apelos em vão...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um " tobogã de lama "

É nestas alturas de tragédia que a solidariedade é necessária. E se hoje sou testemunha deste desastre natural ocorrido na ilha da Madeira, é graças a várias pessoas que me abrigaram na Casa da Luz. As palavras são insuficientes para agradecer o acto daqueles que me acolheram de braços bem abertos.

Tudo iniciou com uma simples chuva. Como habitual no Sábado de manhã, dirigi-me para a academia onde teria uma aula de inglês. Ao chegar à academia deparo-me com a professora e uma amiga na entrada que agradeciam o facto de o elevador não ter avariado na altura em que estas lá se encontravam. Ao ver o agravar do tempo decidimos abandonar a academia e ir para o Anadia, onde estava estacionado o carro da professora. No Anadia, todos os estabelecimentos tinham sido fechados, incluindo o supermercado que encontra-se no rés-do-chão. Subimos até ao andar de cima, onde para nosso terror, observámos fortes repuxos de àgua a serem projectados do solo. A professora chocada com a situação ofreceu-se imediatamente para dar boleia até casa. O relógio devia marcar 11 horas nessa altura. Enquanto que a professora foi carregar o telemóvel e tratar da situação do carro, pois o estacionamento estava inundado, eu e a minha amiga viemos à parte coberta das escadas do Anadia ver a situação. Infelizmente no momento em que estava nessa zona a filmar o acontecimento, juntamente com aproximadamente 15 pessoas a ribeira de João Gomes transborda e vem com tal vigor em nossa direcção que somos arrastados pelas escadas e rua abaixo. Algumas pessoas ainda conseguiram entrar no Centro Comercial do Anadia, mas sem hipótese muitas foram projectadas contra o chão e arrastadas até a avenida.



Após ser arrastada pela violência das ondas lamacentas e repletas de destroços da ribeira de João Gomes desde o Centro Comercial do Anadia até ao largo do Pelourinho, o meu corpo não se encontrava nas melhores condições para se proteger. Apesar das dores musculares, a força pela sobrevivência superou qualquer dor fisica que sofria naquele momento. Com dificuldade, ergui-me e arrastei-me pela àgua até o outo lado da ponte. Naquele momento não via ningúem, penso que aqueles que foram arrastados comigo foram em direcção à avenida. Ao passar pelo Museu da Electricidade as funcionárias ( Senhora Dércia e Senhora Patrícia) que ali aflitas viam a minha situação chamaram-me e trataram-me como se sua filha fosse. Logo na entrada do respectivo museu trouxeram-me uma cadeira onde pude suspirar de alívio e ligar à minha mãe avisando que estava em segurança e que não tinha acontecido qualquer desgraça comigo. A calma nestas situações é fundamental. O Senhor Paulo (funcionário da empresa), veio em meu auxílio e verificou se estava ferida. Apenas uns cortes no joelho e na anca se destacavam. No entanto, todo o meu corpo encontrava-se dorido devido às pancadas que sofri durante o percurso no "tobogã de lama". Ao deslizar naquelas àguas negras e imundas, os pensamentos que me ocorriam era o modo de como poderia sair daquela corrente que sem piedade jogava-me por todo o lado. Durante as tentativas em respirar e a preocupação em sair de ali observei que um senhor partilhava o mesmo pesadelo. Ao ser arrastada ainda pensei .. Estou num filme? Estou na Madeira? As imagens dos desastres naturais ocorridos por todo o mundo vistos na televisão, agora tornavam-se realidade.

Quando já me encontrava no interior do museu, retirei logo as roupas que ainda denunciavam vestígios de lama, matos e todo o tipo de resíduos imagináveis. "Zoombie", é o termo que a meu ver, capta melhor a minha imagem após ser arrastada. Devido ao temporal todas as pessoas que estavam no museu a trabalhar ou a visitar ficaram retidas. As horas pareciam dias, e o facto de não poder contactar com a família piorava a situação. Uma televisão, onde a imagem era exibida com dificuldade relatava aquilo que mais temiamos,mortes, desaparecidos, o desabamento de casas, entre outras infelicidades. Foi naquele lugar onde passei as horas pensando na familia, amigos, na desgraça e na solução de evacuação. É importate salientar, que várias pessoas ao saberem a minha tragédia vieram saber como me encontrava, até mesmo ofrecendo um par de meias, pois apenas havia umas chinelas que pudesse usar.



Ao fim da tarde, os estrangeiros evacuaram o edifício e muitas das pessoas que ali estavam abrigadas foram levadas para o RG3. Eu estive sempre acompanhada pelas funcionárias que vieram em meu auxílio (Senhora Patrícia e Dércia). Naturalmente houve alturas em que estive só, pois havia que cuidar de todos os que ali permaneciam, incluindo idosos. Naquela agitação toda, o estomago já dava sinais de fome, então, um funcionário da empresa preparou um arroz maravilhoso acompanhado com os ovos deliciosos da Senhora Patrícia. É nestas situações que um pouco de arroz e ovos é visto como algo precioso. O telemóvel, a carteira, e todo o resto dos meus pertences que outrora tinham-me sido "roubados" pela corrente já não me interessavam, apenas o conforto e a amizade ali construída me fortaleciam. Aquele telefonema feito à minha mãe à chegada do museu foi ouro! A minha mãe sabia que encontrava-me num lugar seguro e eu sabia que ela e o meu pai também estavam em segurança em casa.

Ao entardecer, penso que já por volta das 20.00 horas, os bombeiros vieram em nosso auxílio. A perna e o braço esquerdo continuavam em sofrimento. Dado aos meus ferimentos tive que ser transportada aos braços de um bombeiro. O Senhor Paulo veio ao meu encontro com o intuito de me levar , visto que o bombeiro não tinha "mãos a medir", este tinha que ajudar outras vítimas. O Funchal estava rasgado pelas àguas, esmagado pelas pedras. Como transmitem os meios de comunicação, uma Cidade Irreconhecivel. Aquelas imagens jamais esquecerei! A rua onde horas anteriores tinha andado, encontrava-se agora submersa. Essa imagem como a a imagem da onda a engolir-me serão imagens que sempre irei recordar. Mas contrapondo esta tristeza, também nunca esquecerei aqueles amigos que até ao fim estiveram ao meu lado.

Os militares eram colegas de escola, conhecia-os de vista. Questionei-me - Não são demasiado novos para estarem aqui? Mas nestas situações, a sua coragem é de admirar e louvar. Tão novos e com um coração tão grande. Sem condições para passar a pé pelas àguas que ainda corriam pelos destroços, um militar teve que transportar-me por entre aquelas correntes fortes.

No final desta tragédia percorri a rua Fernão Ornelas ao colo do Senhor Paulo, que apesar da lama e todas aquelas pedras e objectos espalhados no chão ajudou-me naquele momento de aflição. A Senhora Dércia e a Senhora Patrícia sempre mantiveram a sua solidariedade perante aquela experiência infeliz. No fim da rua conseguimos boleia de um outro senhor amigo, que apesar de todo o pânico tentava manter a calma com o seu sentido de humor. Ficámos na Cancela, o senhor tinha de voltar ao Funchal para ir buscar mais pessoas. Esperámos pelo marido da Senhora Dora, também funcionária do museu, que também contribuíu imenso naquela tragédia. Na vinda para casa o marido da Senhora Dora relatou tantos amigos que tinham falecido ao lutar pela sua sobrevivência. Após aquele dia catastrófico, aqueles relatos na televisão, as conversas no carro, e o pensamento de que a minha mãe ainda não sabia que tinha sido arrastada, apenas imaginei em entrar em casa e abraçar os meus pais. Assim foi, ao chegar a casa os meus pais correram até mim, e num choro de alívio ficamos ali abraçados. A minha segunda prioridade era telefonar à professora e à minha amiga pois durante o dia foi impossível estabelecer ligação. Quando tive conhecimento que ambas estavam bem fiquei mais descansada, e esta alegria foi recíproca ao saberem que apesar de ter sido vítima das águas da ribeira de João Gomes já não corria perigo.



Vivi momentos de aflição, de pânico! No entanto, com pessoas como estas é de agradecer a Deus por ainda existir gente assim. Sei que tive muita sorte. Há quem diga mesmo que foi um milagre. Milagre ou não, só espero que todos tenham tanta sorte como tive em encontrar gente solidária e pronta a dar.

No dia seguinte, fui ao hospital fazaer raio-x para me certificar de que não tinha fracturado a perna ou o braço. Felizmente não acusou nada de grave. Na urgência, várias pessoas demonstravam no rosto a desilusão, o sofrimento causado pela perda de parentes, amigos, a destruição dos lares e bens. Uma senhora gritava pelo marido que tinha falecido ao tentar salvar os seus parentes. Louvo todos aqueles que perderam a sua vida e a sua família.

Apelo a todos que ajudem os desalojados. Muitos nem alimentos possuem. Para entregar alimentos e roupas desloquem-se até ao RG3. Os curiosos que foram ver as ruínas da cidade, também podem ir ao RG3 ajudá-los! Contríbuam! São nestas ocasiões que o ser humano tem de ser solidário e pôr o seu egoísmo de lado! Afinal nunca se sabe quando somos nós a ficar desalojados ou mesmo a ser arrastados pela força da Natureza.


A Casa da Luz foi literalmente a minha Luz! E aqueles que ofreceram-me todo o seu apoio são verdadeiros Anjos! A eles, apenas quero dizer.. OBRIGADA! Quero agradecer a todos os Bombeiros, Militares, Médicos e todos aqueles que neste momento colocam a sua vida em risco para poder salvar outras vidas. Não esquecendo aqueles que tentam devolver a normalidade à cidade do Funchal e todas as outras localidades afectadas da ilha. A essa gente um MUITO OBRIGADA!!

"Não dramatizar lá para fora!"

Uma vez mais aconteceu o inesperado, como tem sido presenciado em todos os cantos do planeta, uma tragédia ou calamidade afectou a ilha da Madeira. Rapidamente começaram a trabalhar contra o mal que já estava feito, e verificou-se a união indispensável por parte do Presidente e Governo da República Portuguesa, como também será de destacar as palavras vindas de Espanha.

Sem dúvida que é o momento certo para unir os esforços para atenuar os dramáticos acontecimentos, onde não devem nem podem entrar guerras de cor partidária. Assim acontece, e um avião C-130 partiu da Base Aérea do Montijo às 10h com uma equipa de 43 elementos - seis mergulhadores da Força Especial de Bombeiros Canarinhos,
cinco elementos do Instituto de Medicina Legal, dois do Grupo de Intervenção Protecção e Socorro com dois cães e 30 agentes da PSP. A Fragata Corte-Real é a próxima forma directa de apoio por parte do Estado, que mostra a sua disponibilização, inclusivamente económica, mas essencialmente focando a responsabilidade europeia.
É da máxima importância que a teimosia orçamental seja desta vez esquecida, e dê lugar aos aspectos indispensáveis, como em qualquer acontecimento do género.

São estes os motivos:


São nestas alturas, no ínicio dos trabalhos de recuperação da normalidade, que começam a surgir as criticas e as culpas.
Hélder Spinola destaca-se como também outras quantas personalidades através de comentários telivisivos desfocados da realidade territorial da Ilha da Madeira.

“Construções junto aos leitos das linhas de água, dos lixos, terras e entulhos que têm sido despejadas dentro das ribeiras e da impermeabilização cada vez maior dos solos”.

Em qualquer uma das ribeiras que atravessam o Funchal, existiram trabalhos nos ultimos anos de melhoramento dos leitos, e existe a preocupação constante de limpar os seus caudais. Qualquer cidadão desta cidade tem a oportunidade de ser incomodado por algumas poeiras ou ruidos que estas limpezas provocam mas todos aceitam como essenciais.
Mas da mesma maneira, existem lixos, terras, entulhos e aterros, digam-se ilegais junto às mesmas, que têm vindo a ser combatidos e de carácter muito polémico, seguidos e acusados atentamente pelo Diário de Notícias da Madeira por exemplo.


“Estes são factores que agora nesta situação mais delicada acabam por significar, infelizmente, perdas de vidas humanas e uma destruição enorme de bens materiais”, “ribeiras estão quase todas a galgar, há pontes destruídas e muitos carros arrastados”.

Não sendo prevísivel esta itensidade de chuvas, não faz sentido em qualquer que seja a realidade que se possa colocar a situação da ilha da Madeira, opinar sobre como está a disposição actual das ribeiras, porque elas estão situadas e têm o mesmo caudal há várias dezenas de anos, e há dezenas de anos que nem ficam perto de correr com mais de 2/3 da sua capacidade.

Ficam os vários avisos feitos para combater aterros ilegais em ribeiras que serão sem dúvida uma grave condicionante para a situação que se vive.

Outros especialistas vêm falar da falta de Floresta, etc etc...
Certamente não conhecem a ilha da Madeira e a sua Laurisilva, talvez no futuro tenham oportunidade de conhecer os seus encantos. A orografia da ilha não permite que se delimite os Planos directores municipais da mesma maneira que na generalidade do território continental, sendo que há limitação de espaços e todos eles na sua grande maioria ou estão em montanha de baixa altitude ou na base das mesmas, havendo obviamente um risco inerente há habitação na ilha.

Há duas indiscutiveis acusações a fazer, o precário e débil combate aos aterros, que juntamente com atrasos na Justiça vêm afectando os cursos de agua, e a falta de previsão dos acontecimentos devido à contínua despreocupação sobre este tipo incidentes naquele que muitos apelidam ou apelidavam de cantinho do céu. A verdade é que este desastre natural foi único, sem comparação possível, e ninguém sem dados científicos poderia prevêr dada a história da ilha no mesmo campo.
Há igualmente indiscutíveis pontos a realçar como foi expressado pelo presidente do Governo, "Sem as canalizações feitas, hoje não haveria baixa do Funchal".

Assentes estes pontos, e reunidas as forças, é altura de juntar esforços, trabalhar e devolver a normalidade à Cidade do Funchal, palco principal do Turismo e das receitas da Região que são indispensáveis para a contínua sobrevivência económica.
Já foram relatados os esforços da Câmara e do Governo Regional, a ajuda do Governo, e há a destacar os trabalhos que os particulares já vêm a ter para limpar os seus estabelecimentos e restituir as condições para continuar a trabalhar.

Os madeirenses tal como os portugueses são Homens de luta, de trabalho, caracterizados pela forte emigração e posterior regresso, que são indicadores das capacidades de um povo forte o suficiente para ultrapassar os acontecimentos de queixo erguido, sem que seja esquecido o luto dos que não sobreviveram mas com as devidas condições, que no momento não podem ser proporcionadas.

Fonte dos excertos seguintes: Diário de Notícias (Madeira)

"O momento de pânico fatal, no local, não terá demorado mais que 20 minutos, nas imediações do túnel sob o Caminho das Babosas, junto aos semáforos que regulam o acesso à Estrada Luso-Brasileira. Uma tormenta de água surgiu a Norte e levou tudo à frente.

A força da água afunilou todas as viaturas na íngreme Estrada Luso-Brasileira. No momento do principal embate, pelo menos 4 ou 5 viaturas 'voaram' autenticamente e foram cair em cima das casas da zona. O portão de acesso ao parque e à rés-do-chão do Edifício Quinta dos Reis abriu-se com a violência e ajudou a escoar parte da água. Ali encalharam também algumas viaturas, permitindo que moradores socorressem alguns dos seus passageiros e condutores."

"Um deles, Bombeiro nos Municipais do Funchal não chegou a apresentar-se no quartel. Perdeu a vida ao tentar a ajudar uma vizinha que estava a ser arrastada pelas águas, no Monte. Na hora de maior aflição, muitas das intervenções foram efectuadas sem tempo a perder e até com grande risco de integridade física para os socorristas. A solidariedade entre vizinhos também foi grande, até na hora de alguns bens salvar animais domésticos. Houve também algumas pessoas, embora poucas, que chegaram a dirigir-se aos quartéis para oferecer a sua ajuda, mas esta foi recusada pois as corporações não se podiam responsabilizar por civis ao serviço em caso de acidente. "O melhor é irem para casa e tentarem a ajudar os vizinhos, se foi possível", ouviram da boca dos bombeiros e de outras forças."

Os principais pontos de intervenção neste momento serão a desobstrução das vias de comunicação, das telecomunicações para que todos os apoios possam ser dados, e a restituição da agua, que tem sido disponibilizada pela Câmara através das suas viaturas. Hoje já é possível ver as entidades públicas e também as privadas a trabalhar no mesmo sentido, e o Governo parece acreditar que no prazo de uma semana alguma normalidade será restituída, visto que algumas estruturas como pontes poderão só vir a ser restituídas num espaço temporal bem mais alargado, como também algumas delas não aconteceram, havendo novas alternativas devido à alteração do território.


O presidente do Governo Regional da Madeira, Dr. Alberto João Jardim, volta a salientar que não devem dramatizar a situação lá fora, apesar de por todo o Mundo a notícia já ser conhecida. Resta restituir a imagem da ilha e mostrar que com o apoio Nacional e Comunitário, a ilha foi capaz de rapidamente resolver este incidente, que faz esquecer tantos outros, como acidentes em levadas, acidentes de autocarros turisticos, os acidentes aéreos, que têm vindo a marcar a imagem negativa da ilha etc...

Esta continua a ser a imagem a passar...


É o presente, será o passado, extemporaneidade intemporal...

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